quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Histórias de Vida (II)

A História de Xinavane

Esta é a história do Xinavane, um menino muito pobre que não tinha dinheiro para comer, para ter uma cama ou mesmo um simples cobertor que o pudesse aquecer nas noites mais frias.
Xinavane era um menino com um coração enorme. Trabalhava mais de 10 horas por dia para poder ajudar a sua família.
A sua mãe tinha 5 filhos e mais um que estava para nascer. Ela tinha de cuidar deles: criá-los, amamentá-los, etc, pelo que não podia trabalhar. O seu pai era um alcoólico que, quando chegava a casa, batia na mulher e nos filhos. Xinavane tinha dois irmãos, que trabalhavam nas construções a acartar tijolos, e duas irmãs que trabalhavam na prostituição.
Xinavane sentia que estava nas mãos dele a família ter o que comer. Num dia de muito frio, a família estava reunida em casa a comer um bocado de pão, porque não tinham dinheiro para mais, quando a mãe de Xinavane se sentiu mal e desmaiou. A família ficou toda num alvoroço a pensar que não podiam levar a senhora ao médico, porque não tinham dinheiro. Então, deitaram-na e foram buscar panos com água fria para lhe pôr na cabeça. Quando olharam para ela, viram uma grande mancha de sangue e perceberam logo que a mãe tinham perdido o bebé.
Os vizinhos quando, depararam com a situação, decidiram juntar-se todos para ajudar a pobre família, levando a senhora ao médico. Quando lá chegaram, o médico viu grandes nódoas negras no corpo da senhora e percebeu que a mulher sofria de violência doméstica. Por isso, chamou a assistente social, mas a senhora negou tudo e disse que aquilo era apenas quedas que ela dava. Embora os médicos não tivessem acreditado naquela história, mandaram-na para casa.
Quando a mulher chegou a casa, os filhos estavam todos à porta à espera dela para ouvirem o que o médico tinha dito. Ela chegou, virou-se para os filhos e disse: “A mãe perdeu o bebé, mas o médico disse que está tudo bem.”. Aquela mãe, que se via na obrigação de cuidar dos filhos, não teve coragem de contar o sucedido a nenhum deles.
Nessa mesma noite, o pai de Xinavane não tinha dormido em casa e a mãe ficou preocupada. No dia seguinte, o pai de Xinavane chegou a casa e começou aos berros com a mulher e a acusá-la de terem perdido o bebé. A mulher tentou explicar, mas o pai de Xinavane deu-lhe um estalo tão forte que ela cai pelas escadas abaixo, magoando-se fortemente.
Xinavane, que tinha assistido àquilo tudo, esperou que o pai saísse de casa e foi ajudar a sua mãe. Ela estava num caos. Se calhar, até estava com uma costela partida, mas não dava para ir ao médico.
Xinavane começou a fazer perguntas à mãe, perguntas atrás de perguntas, mas a mãe tentava sempre desculpar o pai, dizendo que ele nunca tinha feito isso e que, se fizera, fora porque ela merecera.
Nessa mesma noite, os irmãos de Xinavane estavam a trabalhar quando o pai chegou a casa, outra vez bêbedo, começou a deitar tudo ao chão e a gritar. A esposa estava a ferver água e ele chegou lá e atirou-lhe a panela com água a ferver, queimando-lhe o braço. Xinavane, ao ver o sofrimento na cara da mãe, correu e começou a dar pontapés ao pai, que lhe deu um estalo muito forte.
Nos dois dias que se seguiram, estava tudo a correr bem, sem agressões. No entanto, um dia, quando Xinavane estava a trabalhar, ouviu uma vizinha a gritar e a dizer que tinham assassinado uma mulher. Xinavane pensou logo que era a sua mãe e decidiu ir a correr para casa. Quando chegou lá, viu os irmãos abraçados a chorar e o pai amarrado pela polícia. Xinavane entrou em casa e viu a mãe deitada no chão, toda queimada, porque o pai lhe tinha deitado gasolina e, depois, tinha-lhe ateado fogo. Xinavane começou a chorar.
Depois deste triste acontecimento, o tempo foi passando e, passados uns anos, a família continuava em sofrimento, apesar de o pai estar preso, pois Xinavane e os irmãos continuavam sem ter que comer. As irmãs dele continuavam na prostituição, continuavam a vender o corpo a pessoas que nem conheciam e já tinham apanhado a sida e outras doenças. Os irmãos trabalhavam no mesmo, eram muito magros, estavam sempre a desmaiar, porque não se alimentavam convenientemente. A determinada altura, a família não comeu durante 3 dias.
Foi então que chegou o dia do pai de Xinavane sair da prisão. Na prisão, ele tinha conhecido um homem que fazia tráfico de crianças e que lhe perguntou se ele queria juntar-se a ele. O pai de Xinavane aceitou, porque percebeu que podia ganhar dinheiro para comprar álcool e droga. Assim, quando saiu da prisão, dirigiu-se para casa. Quando os filhos o viram, juntaram-se todos com medo. Ele abriu a porta e sorriu para os filhos. Eles estavam a tremer e Xinavane virou-se para ele e disse:
- Fizeste mal à mãe, mas podes ter a certeza que não vais fazer isso a nós!
O pai de Xinavane, com um sorriso hipócrita disse:
-Eu não vou fazer-vos mal, pois eu curei-me. Aqueles dias na prisão fizeram-me perceber que vocês são o mais importante que eu tenho na vida.
Os irmãos de Xinavane, ao ouvirem aquilo, correram para o abraçar, mas Xinavane não foi, porque percebeu que aquilo era mais uma mentira do pai. Passados uns dias, o pai de Xinavane decidiu levar Xinavane a dar um passeio, mas, no fundo, aquilo fazia parte do plano para vender o filho. Quando chegaram ao local do encontro, o pai de Xinavane bateu-lhe com tanta força que ele acabou por desmaiar. Então, chegou o cliente e levou-o para o carro. O que o pai de Xinavane não sabia era que esse cliente era um polícia que já estava há muito tempo a descobrir quem fazia o tráfico de crianças naquela região. Então, naquele momento, apareceram carros da polícia por todo o lado e prenderam o pai de Xinavane.
Quando Xinavane acordou, estava numa casa enorme e apareceu-lhe uma bela rapariga que lhe pediu para esperar. Xinavane esperou e apareceu-lhe um senhor que lhe explicou o que acontecera. Então o senhor disse-lhe:
- Xinavane, o teu pai, quando foi para a prisão conheceu um senhor que lhe perguntou se ele queria fazer tráfico de crianças. O teu pai aceitou de imediato, porque percebeu que assim podia ganhar dinheiro para os seus vícios. Ele saiu da prisão e nós apanhamos o cúmplice dele. Entretanto, eu decidi infiltrar-me nessa quadrilha para poder apanhá-los. Fiz-me de cliente e marquei um encontro com o teu pai. Foi então que ele te trouxe e eu apanhei-o.
Xinavane começou a chorar a lembrar-se da mãe. Então o policia disse-lhe:
- Não te preocupes, que o teu pai, com os crimes que tem, vai ficar preso para sempre.
Xinavane respondeu-lhe
- Mas eu tenho de ir ter com a minha família, eles precisam de mim!
O polícia acalmou-o e disse-lhe:
- A tua família já está a vir para aqui. Agora, esta vai ser a vossa casa. Xinavane, diz-me só uma coisa, o teu pai obrigou as tuas irmãs a prostituírem-se porquê?”
Xinavane respondeu-lhe:
- O meu pai obrigou-nos a fazer tudo o que ele queria. Se nós não fizéssemos, ele batia-nos e até podia matar-nos.
Vieram as lágrimas aos olhos do polícia. Então, ouve-se a campainha a tocar. Eram os irmãos de Xinavane que tinham chegado, eles abraçaram-se e começaram a chorar e a pedir desculpa uns aos outros.
Passados 20 anos, Xinavane casou-se com a filha do polícia que tinha salvado a família dele.
Xinavane foi a uma falésia com uma rosa na mão, começou a relembrar tudo o que passou e disse
- Não quero que os meus filhos passem por tudo aquilo que passei. A infância dos meus filhos não vai ser igual à minha.
Em seguida, atirou a rosa ao mar. Aquela rosa branca, para além de ser a flor preferida da mãe dele, era o símbolo da esperança que ele sempre tivera na infância.

Bárbara Santos, 9ºB

4 comentários:

Anónimo disse...

Bárbara, está lindo!!

Adoro mesmo os teus textos =)

Amo-te muito, rapariga =)

Luz disse...

Mais uma vez estou profundamente impressionada...
Luz

Anónimo disse...

Como eu já te tinha dito, os teus textos são lindos, marcam qualquer pessoa com sentimentos.

Profª Matilde disse...

Muito bem Bárbara.

Parabéns!