domingo, 27 de julho de 2008

Lágrimas Ocultas...

Lágrimas Ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca

2 comentários:

Prof. António disse...

Quase se poderia dizer que a poesia de Florbela é um "contrasenso". Como é que a tristeza se pode tornar tão "bela"?

Profª Matilde disse...

Há dias que parecem noites, eu sei.

E que temos de fazer um esforço enorme para viver, e não só para existir...

Mas, mesmo que o elenco seja muitas das vezes mau, vale a pena continuar a representar a vida!

Com alguém por perto, de preferência.